Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise — Parte II: Texto 6 – Como é que a escrita e a leitura funcionam em conjunto: a chave para fortalecer as competências de literacia . Por Meredith Cooley

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

 

Parte II – A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir.

Escrever e ler são recíprocos. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes

Autora anónima do sítio Learning for Life da plataforma Medium

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Nota de editor:

A ordem que se segue nesta Parte II respeita a progressão de dificuldade estabelecida pelo autor da série — N1, N2, N3 — com uma sequência interna a cada grupo pensada para maximizar a coerência de leitura: dos conceitos mais gerais para os mais específicos dentro de cada nível. O presente texto enquadra-se no Nível 1.

FT


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

Texto 6 – Como é que a escrita e a leitura funcionam em conjunto: a chave para fortalecer as competências de literacia

 Por Meredith Cooley

Publicado por  em 18 de Agosto de 2025 (original aqui)

 

A escrita e a leitura estão profundamente interligadas, e o fortalecimento de ambas em conjunto ajuda os alunos a desenvolver competências de literacia mais abrangentes e uma compreensão mais profunda. Quando a instrução une intencionalmente estas práticas, os alunos tornam-se comunicadores mais confiantes e leitores mais capazes.

Uma publicação do nosso blog de Aprendizagem em Literacia: Série sobre a Ciência da Leitura é escrita por professores, para professores — esta série oferece aos educadores os conhecimentos e as boas práticas necessárias para aperfeiçoar as suas competências e implementar em sala de aula estratégias eficazes baseadas na ciência da leitura.

A leitura e a escrita não são competências separadas que funcionam de forma isolada — são processos interligados que se reforçam mutuamente de maneira poderosa. Quando compreendemos como o cérebro processa a literacia, verificamos que áreas específicas tratam do processamento da linguagem oral, enquanto outras regiões gerem as formas de linguagem escrita. Ao praticar tanto a leitura como a escrita, os alunos percorrem estes circuitos neuronais nos dois sentidos, criando ligações mais sólidas.

Jennifer Delano-Gemzik, EdD, especialista em literacia e consultora do 95 Percent Group, lembra-nos que a capacidade de mapear sons garante a capacidade de decodificação, mas o contrário não é verdade. “Só porque um aluno consegue ler uma palavra não significa que consiga escrevê-la ou soletrá-la corretamente — mas se ele consegue soletrá-la, consegue decodificá-la“. Quando os alunos conseguem mapear corretamente os sons de uma palavra, estabelecem uma via neural mais robusta no cérebro, criando caminhos mais profundos para o sucesso na literacia do que a prática de leitura isolada pode proporcionar.

 

O papel da escrita no desenvolvimento da literacia

A escrita desempenha um papel essencial no desenvolvimento da literacia, servindo tanto como base para o sucesso académico quanto como ferramenta para a aprendizagem ao longo da vida. Compreender como a escrita funciona exige reconhecer que ela engloba dois componentes distintos, mas interligados, conforme descrito no modelo da ‘corda da escrita’ de Joan Sedita.

 Jennifer Delano-Gemzik, EdD

Especialista e consultora em Literacia do 95 Percent Group

 

 

Transcrição

O primeiro componente consiste nas capacidades de transcrição — as capacidades fundamentais que permitem aos alunos produzir fisicamente a linguagem escrita. Isso inclui a formação de letras, a compreensão de conceitos de escrita como o espaçamento entre palavras, a fluência na escrita à mão, a precisão ortográfica e o uso correto de maiúsculas e pontuação. Estudos demonstraram que o nível de automaticidade que os alunos (e adultos!) desenvolvem ao longo do tempo tem um impacto significativo na memória de trabalho e, consequentemente, nos “processos de ordem superior” exigidos pela escrita. Essas capacidades de transcrição precisam de se tornar automáticas e fluentes, assim como as capacidades de reconhecimento de palavras na metade inferior da “corda da leitura”.

Programas de fonética de Nível 1 como o 95 Phonics Core Program e recursos de Nível 2 como o 95 Phonics Lesson Library ensinam explicitamente a caligrafia até à automatização, proporcionando aos alunos instrução sistemática, prática guiada em contexto e oportunidades de aplicação até que estas competências se tornem uma segunda natureza. Estes programas ensinam também tanto a codificação como a descodificação, assegurando a precisão ortográfica necessária para uma composição fluente.

 

Composição

Quando os alunos alcançam fluência nas competências de transcrição, libertam capacidade cognitiva para se concentrarem no segundo componente: as competências de composição. “Isto reflete o que acontece no desenvolvimento da leitura”, afirmou Gemzik. “Quando os alunos se tornam descodificadores proficientes e automáticos, conseguem dedicar mais recursos mentais à compreensão e aos processos de pensamento de ordem superior.” É precisamente por isso que o domínio das competências fundamentais — como a formação de letras e a ortografia — é tão crítico nos anos de escolaridade do 1.º ao 5.º ano. Os alunos precisam que estas competências se tornem automáticas para que o cérebro possa transitar para as tarefas metacognitivas mais complexas exigidas por uma composição eficaz.

 

A ciência por detrás da leitura e da escrita

A ciência cognitiva que fundamenta a leitura e a escrita oferece perspetivas sobre como esses processos se apoiam mutuamente. Diferentes regiões do cérebro são ativadas durante tarefas de literacia — sendo a escrita uma atividade que exige a integração de múltiplos processos em simultâneo. Essa integração fortalece as vias neurais.

O desenvolvimento do vocabulário e da linguagem oral desempenha um papel fundamental neste processo. Gemzik deu-nos um exemplo disso. “De um modo geral, para que os alunos consigam escrever uma frase, precisam de ter experiência em usá-la oralmente — o que sublinha a importância de desenvolver competências ricas de linguagem oral. No entanto,” continuou ela, “a relação entre o vocabulário oral e o escrito muda à medida que os alunos avançam na escola. Inicialmente, as crianças chegam à escola com competências de linguagem oral muito mais desenvolvidas do que competências de leitura e escrita. Depois, por volta do terceiro ou quarto ano, ocorre uma mudança significativa — o vocabulário escrito dos alunos começa a superar o oral, à medida que lidam com textos cada vez mais sofisticados.” O crescimento do vocabulário através da leitura apoia a capacidade dos alunos de utilizarem esse mesmo vocabulário na sua escrita.

Esta mudança também destaca a importância das estratégias de expansão de frases. Através de leituras em voz alta e de instrução explícita, os alunos aprendem a analisar frases complexas, compreendendo como as palavras e expressões funcionam dentro das frases para comunicar significado. Este trabalho analítico sobre a sintaxe é o que ajuda os alunos a escreverem eles próprios frases complexas.

 

Como é que a escrita melhora as competências de leitura

A escrita apoia o desenvolvimento da leitura em múltiplos domínios, criando benefícios linguísticos recíprocos que reforçam a competência geral de literacia.

 

Desenvolvimento da consciência fonémica

A leitura e a ortografia partilham uma relação recíproca na base da consciência fonémica. À medida que os alunos desenvolvem a consciência dos sons individuais (fonemas), devem compreender que as letras representam esses sons. Por sua vez, à medida que aprendem as letras, reforçam a compreensão de que as letras representam os sons individuais que ouvem nas palavras. Este duplo reforço consolida a consciência fonémica para além do que a instrução de leitura ou de ortografia, isoladamente, conseguiria alcançar.

Programas como o Kid Lips (incluído no 95 Phonemic Awareness Suite™ e o 95 Pocket PA™ não param apenas no nível sonoro — eles conectam sistematicamente os sons às suas representações escritas. Os alunos não apenas olham para as letras; eles escrevem-nas enquanto dizem, simultaneamente, os sons correspondentes. Essa abordagem multimodal ajuda os alunos a desenvolverem a automaticidade nas conexões entre o som e a grafia.

 

Desenvolvimento de vocabulário e linguagem

A escrita exige uma precisão no uso da linguagem que a fala, muitas vezes, não requer. “Quando os alunos escrevem”, explicou Gemzik, “eles precisam de escolher palavras que expressem exatamente o que querem dizer, o que leva a escolhas de vocabulário mais deliberadas e a um conhecimento mais profundo das palavras. Essa exigência de especificidade incentiva os alunos a expandirem os seus vocabulários e a desenvolverem estruturas de linguagem mais estruturadas.”

O ato de escrever também ajuda os alunos a internalizarem padrões de frases e estruturas gramaticais que encontram na leitura. À medida que praticam a construção de frases, eles desenvolvem uma compreensão intuitiva de como a língua funciona, o que se transfere diretamente para a compreensão da leitura.

 

Pensamento Crítico e Compreensão

A escrita exige que os alunos organizem pensamentos, estabeleçam ligações entre ideias e apresentem informações de forma lógica. Estes processos de pensamento crítico apoiam diretamente as competências de compreensão na leitura. Quando os alunos escrevem sobre o que leem, são obrigados a processar a informação de forma mais profunda, a analisar as relações entre conceitos e a sintetizar o conhecimento — processos de compreensão que são centrais para a leitura e para a construção de significado em textos mais complexos.

Gemzik apresenta este exemplo: “A investigação tem demonstrado a importância de fazer com que os alunos leiam e decomponham frases complexas para compreenderem o papel das palavras e frases dentro das próprias textos — como são utilizadas para comunicar significado — para que possam, depois, utilizar eficazmente frases complexas na sua própria escrita.

 

4 Estratégias para integrar a escrita na instrução de alfabetização

A um nível básico, muitas vezes esquecemos que a [escrita] precisa de ser explícita para os alunos. Às vezes, esperamos que eles simplesmente aprendam por meio da imersão. Mas a realidade é que eles precisam de ter experiência — além de competências orais ricas — que possam utilizar. E mesmo assim, os professores ainda precisam de modelizar esse processo para os alunos desde o início. – Jennifer Delano-Gemzik, EdD

 

1. Construção sistemática de competências

A instrução de escrita eficaz é explícita e sistemática. Os alunos precisam de modelagem de todo o processo de escrita, desde a construção de frases até à expansão e combinação. Os professores demonstram como planear para diferentes propósitos de escrita e fornecem prática guiada antes de esperar a aplicação independente.

Embora as experiências ricas de imersão linguística sejam importantes, a investigação sublinha a necessidade de ir além das abordagens de imersão no ensino da escrita. Os alunos necessitam de instrução explícita sobre a mecânica e os processos de uma escrita eficaz. Isto inclui desde a formação de letras e a correspondência entre sons e grafemas, passando pela prática de ditado e construção de frases, até às estratégias complexas de planeamento para tarefas de escrita mais extensas.

Para os alunos que aprendem inglês e para aqueles cujas competências de linguagem oral ainda estão em desenvolvimento, estruturas de apoio como iniciadores de frases e modelos frásicos reduzem a carga cognitiva, enquanto apoiam a construção de frases completas na escrita.

 

2. Escrita intencional em diferentes áreas do currículo

A escrita serve múltiplos propósitos para além do desenvolvimento da literacia — pode aprofundar significativamente a compreensão dos alunos nas diferentes áreas do currículo. Quando os alunos escrevem sobre conceitos científicos, acontecimentos históricos ou até processos matemáticos, precisam de organizar o seu conhecimento e articular a sua compreensão de forma clara. Este processo reforça tanto os conhecimentos já adquiridos como a aprendizagem de novos conteúdos, desenvolvendo simultaneamente as competências de escrita.

Programas como o Morpheme Magic incentivam os alunos a aplicar o conhecimento sobre morfemas nas diferentes áreas do currículo. Gemzik apresenta o seguinte exemplo: “Se os alunos estiverem a estudar o prefixo ‘in-‘ enquanto leem Hatchet (por exemplo), podem identificar palavras com esse prefixo ao longo do texto e utilizar cinco delas para escrever sobre acontecimentos da história, estabelecendo uma ligação entre a consciência morfológica, a leitura e a compreensão dos conteúdos.”

 

3. Aplicação diária de morfemas

Além disso, o Morphemes for Little Ones (especificamente para alunos do Pré ao 3.º ano) enfatiza a prática diária de escrita com morfemas-alvo. O programa inclui um amplo desenvolvimento da linguagem oral — os alunos pronunciam morfemas, utilizam-nos em frases e interagem com cartões ilustrados que apresentam propostas de discussão. Essa base oral apoia a prática diária de escrita, que ajuda os alunos a internalizar os padrões morfémicos.

 

4. Respostas para a Literatura

Existem muitas formas de responder à literatura, como discussões em círculos literários, análise de personagens, mapeamento de histórias ou apresentações em formato de “conversa sobre livros”. Uma atividade diferenciada é a Correspondência entre Alunos como Resposta à Literatura.

Esta ideia é baseada na clássica atividade de correspondência entre turmas — mas com uma conversa adicional sobre literatura. Desenvolver uma parceria literária entre duas turmas oferece aos alunos a oportunidade de criar conexões reais com colegas, ao mesmo tempo em que praticam a competência de escrever sobre o que leram. Os alunos são emparelhados com colegas de outra turma que têm interesses de leitura semelhantes, podendo então estabelecer um diálogo (tanto oral quanto escrito) sobre o que andam a ler.

Além de oferecer uma oportunidade de prática autêntica, esta atividade também proporciona uma maior exposição a textos novos e diversificados para todos os alunos.

 

Juntando tudo

Na sua base, o ensino eficaz da escrita reconhece que os alunos precisam de ensino explícito, e não apenas esperar que as competências se desenvolvam por meio da imersão na leitura. Os alunos progridem quando têm experiências das quais podem partir e competências ricas de linguagem oral como pré-requisitos para o sucesso na escrita. A partir daí, precisam de uma modelização sistemática dos processos de escrita — como construir frases, expandir ideias, combinar pensamentos, escrever para diferentes propósitos e planear com eficácia.

A relação recíproca entre leitura e escrita cria um ciclo poderoso de desenvolvimento da literacia. À medida que os alunos se envolvem com textos bem escritos, internalizam padrões e estruturas linguísticas que podem aplicar na sua própria escrita. Ao praticarem a escrita, desenvolvem uma apreciação mais profunda pelas escolhas de estilo que os autores fazem, aprimorando a sua compreensão na leitura e as suas capacidades de análise.

A chave está em compreender que tanto as competências de transcrição quanto as de composição são importantes, que o ensino explícito acelera o desenvolvimento e que a integração entre leitura e escrita cria oportunidades de aprendizagem maiores do que a soma das suas partes. Quando os educadores adotam essa abordagem integrada, oferecem aos alunos a base mais sólida possível para o sucesso na literacia em todas as áreas académicas e ao longo de toda a sua vida.

Ao reconhecer a escrita como uma ferramenta poderosa para melhorar as competências em leitura, os professores podem criar uma instrução de literacia mais abrangente e eficaz, que atenda ao percurso de cada aluno rumo a tornar-se um leitor e escritor confiante e competente.

 

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Biografia da especialista

Jennifer Delano-Gemzik, EdD trabalhou na educação nos últimos 25 anos como consultora e formadora nacional de English Language Arts [ELA] para escolas e distritos em tópicos relacionados com a Ciência da Leitura e implementação de instrução alinhada com evidências. Antes de se juntar ao 95 Percent Group, Gemzik trabalhou como consultora nacional ELA para o Consortium on Reach Excellence, como facilitadora nacional LETRS e como consultora privada. Ela é treinadora certificada pelo Estado da Carolina do Norte para pesquisa de leitura para prática em sala de aula, bem como delegada de dislexia. Ela atuou como membro do Comité Consultivo ELA da Carolina do Norte e, como orgulhosa mãe de dois filhos com necessidades especiais, foi voluntária em um grupo consultivo de pais do Estado para promover a legislação de alfabetização no estado. Ela também trabalhou como administradora de escola primária, treinadora de alfabetização, professora de sala de aula e professora de Inglês como segunda língua na Carolina do Norte e no exterior com o Peace Corps.


Fontes

  1. López-Escribano, C., Martín-Babarro, J., and Pérez-López, R. “Promoting Handwriting Fluency for Preschool and Elementary-Age Students: Meta-Analysis and Meta-Synthesis of Research From 2000 to 2020.” Frontiers in Psychology 13 (2022): 841573. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2022.841573.
  2. Moran, Renee, and Monica Billen. 2014. “The Reading and Writing Connection: Merging Two Reciprocal Content Areas.” Georgia Educational Researcher 11 (1). https://doi.org/10.20429/ger.2014.110108.
  3. Wierschem, Jenny. 2019. “What Is the Language Literacy Connection for Skilled Reading? – International Dyslexia Association.” International Dyslexia Association. December 20, 2019.
  4. WWC | Teaching Elementary School Students to Be Effective Writers.” n.d. https://ies.ed.gov/ncee/WWC/PracticeGuide/17.

 


A autora: Meredith Cooley é gestora editorial sénior, parceira estratégica de conteúdo e contadora de histórias. Ela desenvolve liderança de pensamento e conteúdo centrado no educador que ajuda a traduzir a Ciência da Leitura em perspetivas significativas para professores e líderes distritais. Educadora experiente e especialista em alfabetização treinada na abordagem Orton-Gillingham, ela tem mais de 15 anos de experiência em sala de aula e uma profunda compreensão do ensino de alfabetização.

 

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